Trombose no Membro Superior: Por Que Está Cada Vez Mais Comum?

A American Venous Forum publicou, entre 2025 e 2026, a primeira diretriz dedicada exclusivamente à trombose venosa do braço — até então tratada como uma “irmã menor” da trombose de perna.
Dr. Abdo Farret Neto | Angiologista, Cirurgião Vascular e Endovascular
Quando se fala em trombose venosa profunda, quase todo mundo pensa na perna. Mas o braço também trombosa — e nos últimos anos isso vem acontecendo com mais frequência. O motivo não é um mistério: cada vez mais pacientes usam cateteres venosos centrais, PICC lines, marcapassos e desfibriladores implantáveis, e todos esses dispositivos passam por dentro das veias do braço.
Trombose venosa profunda de membro superior (TVP-MS) em poucas linhas
A TVP-MS afeta as veias profundas do braço — subclávia, axilar, braquial, entre outras. Representa apenas 4% a 10% de todas as tromboses venosas profundas, mas vem ganhando espaço justamente por causa do uso crescente de dispositivos intravasculares. Apesar de menos frequente, não é uma versão “mais leve”: pode levar a embolia pulmonar e a sequelas crônicas, exatamente como a trombose de perna.
Duas causas bem diferentes
Nem toda TVP-MS surge do mesmo jeito. Existem dois grupos com histórias distintas:
- Primária (cerca de 20% dos casos): aparece do nada, sem cateter ou doença de base. O exemplo clássico é a Síndrome de Paget-Schroetter, também chamada de “trombose de esforço” — atinge principalmente adultos jovens e atletas que fazem movimentos repetitivos com o braço acima da cabeça (natação, vôlei, musculação, trabalhos manuais). A causa mecânica costuma ser uma compressão da veia subclávia na região do desfiladeiro torácico.
- Secundária (cerca de 80% dos casos): ligada a um fator identificável. Cateter venoso central é o principal — responde por cerca de metade dos casos secundários. O câncer também tem papel importante: cerca de 1 em cada 3 pacientes com TVP-MS secundária tem uma neoplasia como pano de fundo, e muitas vezes o cateter está ali justamente por causa do tratamento oncológico. Vale destacar: trombose de braço sem causa aparente pode ser o primeiro sinal de um câncer ainda não diagnosticado.
Como se diagnostica?
O exame de escolha é o ultrassom Doppler — rápido, não invasivo e cada vez mais disponível até no pronto-socorro. O grande desafio não é o exame, é a suspeita clínica: o quadro costuma ser discreto (inchaço e desconforto no braço, às vezes confundidos com esforço muscular), o que atrasa o diagnóstico.
Como se trata?
O tratamento muda conforme a causa:
- TVP-MS primária: anticoagulação por 3 meses é a conduta padrão.
- Síndrome de Paget-Schroetter: exige abordagem mais agressiva — trombólise dirigida por cateter (eficaz principalmente se feita nos primeiros 10 a 14 dias) associada à descompressão do desfiladeiro torácico (cirurgia para retirar a primeira costela e liberar a compressão). Quando bem indicado, esse manejo combinado tem taxa de recuperação plena de 90% a 95% em um ano.
- TVP-MS por cateter: anticoagulação por 3 a 6 meses se o cateter for retirado; se o cateter permanecer, mantém-se a anticoagulação enquanto ele estiver no lugar, mais 3 meses após a remoção.
Por que isso importa
TVP-MS não é uma trombose “de segunda categoria”. As mesmas complicações da trombose de perna estão em jogo:
- Embolia pulmonar;
- Síndrome pós-trombótica (dor e inchaço crônicos no braço);
- Em casos ligados a cateter infectado, tromboflebite séptica.
Aviso: este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada.
Perguntas rápidas
1) Trombose no braço é rara, então é menos perigosa? Não. É menos frequente, mas o risco de embolia pulmonar e de sequelas crônicas é real — por isso merece a mesma atenção da trombose de perna.
2) Quem usa PICC ou cateter deve se preocupar? Deve ficar atento a sinais como inchaço, dor ou vermelhidão no braço do lado do cateter, e comunicar a equipe médica rapidamente. É a causa mais comum de TVP-MS secundária.
3) Trombose de braço sem causa aparente sempre indica câncer? Não sempre, mas é um sinal de alerta importante — cerca de um terço dos casos secundários está associado a neoplasia, o que justifica investigação nesses casos.
Até o próximo post!